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16/06/2018

CÂNCER DE MAMA - DEU NO NEW YORK TIMES

 

MUITAS MULHERES COM CÂNCER DE MAMA PODEM DISPENSAR A QUIMIO, DIZ ESTUDO
Testes genéticos identificaram mulheres que poderiam receber uma droga que bloqueia o estrógeno

Denise Grady
Nova York


Muitas mulheres que têm câncer de mama em estágio inicial e receberiam quimioterapia nos parâmetros atuais de tratamento na verdade não precisam desse tratamento, de acordo com um grande estudo internacional que deve resultar em mudanças rápidas nos tratamentos médicos.
"Podemos poupar milhares e milhares de mulheres de receber um tratamento tóxico que na verdade não as beneficiaria", disse Ingrid Mayer, médica do Centro Médico da Universidade Vanderbilt e autora do estudo. "Isso é muito importante. Realmente muda as normas de tratamento".
Bari Brooks de White House, Tennesse, que fez tratamento para câncer de mama com quimioterapia - William DeShazer para o New York Times
O estudo constatou que testes genéticos em amostras de tumores eram capazes de identificar mulheres que poderiam evitar com segurança a quimioterapia e receber tratamento em forma de um remédio que bloqueia o hormônio estrógeno ou impede que o corpo o produza.
O remédio que bloqueia o hormônio, chamado tamoxifeno, e outros medicamentos parecidos, conhecidos como terapias endócrinas, se tornaram parte essencial do tratamento da maioria das mulheres porque reduzem o risco de recidiva, de novos tumores de mama, e de morte causada pela doença.
"Acredito que esse seja um avanço  importante", disse Larry Norton, médico do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, de Nova York. Ele não está entre os autores do estudo, mas seu hospital participou da pesquisa. "Poderei olhar a paciente nos olhos e dizer que o tumor dela foi analisado e que seu prognóstico é realmente bom e ela não precisa de quimioterapia. É muito bom poder dizer algo assim a alguém".
As constatações se aplicam a cerca de 60 mil mulheres por ano ano nos Estados Unidos, de acordo com Joseph Sparano, médico do Montefiore Medical Center, em Nova York, e líder do estudo.
"Os resultados indicam que agora podemos abdicar da quimioterapia em 70% das pacientes que seriam potenciais candidatas a ela, com base em aspectos clínicos", disse Sparano.
Mas Sparano e Mayer acrescentaram uma nota de cautela: os dados indicam que algumas mulheres com 50 anos de idade ou menos poderiam se beneficiar de uma quimioterapia mesmo que os resultados de testes genéticos indiquem outra coisa. Não se sabe exatamente o motivo, mas essas mulheres requerem consultas especialmente cuidadosas, segundo os dois médicos. (A maior parte dos casos de câncer de mama acontecem em mulheres mais velhas: a idade mediana da paciente de câncer de mama nos Estados Unidos é de 62 anos.)
O estudo, chamado Tailorx, está sendo publicado pela revista acadêmica New England Journal of Medicine e foi apresentado no domingo em uma reunião da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, em Chicago. O estudo foi iniciado em 2006, com verbas dos governos do Canadá e dos Estados Unidos, e de organizações filantrópicas. A Genomic Health, a empresa que produz o teste genético, também vem ajudando a custear o estudo, desde 2016.
Este ano, a expectativa é de que surjam 260 mil casos novos de câncer de mama nas mulheres dos Estados Unidos, e que a doença cause 41 mil mortes. No mundo, os dados mais recentes se referem a 2012, quando foram registrados cerca de 1,7 milhão de casos novos e mais de meio milhão de mortes.
A quimioterapia é capaz de salvar vidas, mas apresenta sérios riscos que tornam importante evitar essa forma de tratamento caso ela não seja necessária. Além da perda de cabelos e das náuseas que incomodam muito as pacientes, a quimioterapia pode causar danos cardíacos e nos nervos, deixar as pacientes vulneráveis a infecções, e elevar o risco de que elas desenvolvam leucemia no futuro. O Tailorx é parte de um esforço mais amplo para conduzir sintonia fina de tratamentos e poupar os pacientes de efeitos colaterais severos, sempre que possível.
A terapia endócrina também tem efeitos colaterais, que podem incluir calores e outros sintomas associados à menopausa, ganho de peso e dores musculares e nas juntas. O tamoxifeno pode elevar o risco de câncer do útero.
As pacientes afetadas pelas novas descobertas incluem mulheres que, como a maioria das participantes do estudo, tiveram detectados tumores em estágio inicial de câncer de mama com tamanhos de entre um e cinco centímetros; nessas pacientes, a doença ainda não se expandiu aos nódulos linfáticos; elas são sensíveis ao estrógeno; não mostram traços de uma proteína chamada HER2; e apresentam resultado de entre 11 e 25 pontos em um teste amplamente usado que avalia a atividade de um painel de genes envolvido na recorrência do câncer.
O teste genético, chamado Oncotype DX Breast Cancer Assay [painel oncotipo DX de câncer de mama], serve como foco ao estudo. Existem outros painéis genéticos, mas este é o mais amplamente usado nos Estados Unidos. O exame é conduzido usando amostras de tumores extraídas em cirurgias, para ajudar a determinar se uma quimioterapia ajudaria. O teste em geral é realizado para mulheres com câncer de mama em estágio inicial, e não para as portadoras de tumores avançados, que necessitam claramente de quimioterapia porque o câncer se espalhou para os nódulos linfáticos ou outras partes do organismo.
O teste está disponível desde 2004, e se baseia em uma escala de 0 a 100 pontos. Seu custo é de US$ 3 mil e os planos de saúde em geral o cobrem. Pesquisas anteriores demonstraram que resultados de menos de 10 pontos não requerem quimioterapia, e resultados superiores a 25 pontos sempre a requerem.
Mas a maioria das mulheres a quem o teste se aplica têm resultados dos 11 aos 25 pontos, que são considerados intermediários.
"Essa era uma das grandes questões não respondidas na administração do câncer de mama - o que fazer quanto às pacientes com resultados intermediários", disse Norton. "E não se sabia de forma alguma o que fazer". Ele acrescentou que "diversas pacientes com resultados dessa ordem estão recebendo quimioterapia".
Sparano disse que muitas pacientes vinham recebendo quimioterapia porque, em 2000, o Instituto Nacional do Câncer americano recomendou essa forma de tratamento para a maioria das mulheres, mesmo para aquelas cujo câncer ainda não havia atingido os nódulos linfáticos, com base em estudos que demonstravam que o tratamento poderia impedir o câncer de retornar em outras partes do corpo e se tornar incurável.
"Recorrências estão sendo prevenidas, e vidas estão sendo prolongadas", disse Sparano. "Mas é provável que muitas dessas mulheres estejam recebendo tratamentos mais pesados do que precisariam. Para cada 100 mulheres que tratamos, provavelmente prevenimos cerca de quatro recidivas distantes".
Mayer disse que "não éramos capazes de determinar quem exatamente precisava do tratamento".
A disponibilidade do teste genético, a partir de 2004, ajudou os pesquisadores a determinar as mulheres com risco muito baixo ou muito alto.
"Mas realmente não sabíamos o que fazer com as mulheres cujos resultados eram intermediários", disse Mayer. "Algumas pareciam se beneficiar e algumas não. Estávamos de volta à estaca zero, optando pela segurança e realizando quimioterapia em muitas pacientes que não precisavam dela".
Começaram a emergir dados que indicavam que as mulheres com resultados intermediários não estavam sendo beneficiadas pela quimioterapia, e muitos médicos começaram a recomendar essa forma de tratamento com menos frequência. Mas era necessário um estudo definitivo, e foi assim que o Tailorx surgiu.
O estudo foi iniciado em 2006 e veio a incluir 10.253 mulheres com idades de entre 18 e 75 anos. Das 9.719 pacientes sobre as quais existem dados de acompanhamento completos, 70% apresentavam resultados de entre 11 e 25 pontos no painel genético. Elas passavam por cirurgia ou radioterapia, e depois eram designadas aleatoriamente para receber apenas terapia endócrina ou terapia endócrina mais quimioterapia. O período médio de acompanhamento para essas pacientes foi de mais de sete anos.
Com o tempo, os dois grupos apresentaram resultados igualmente bons, A quimioterapia não apresentava vantagens. Ao final de nove anos, 93,9% das pacientes continuavam vivas no grupo que recebeu apenas terapia endócrina, ante 93,8% no grupo que também recebeu quimioterapia. No grupo da terapia endócrina, 83,3% das pacientes não apresentavam doenças invasivas, ante 84,3% no grupo de pacientes que receberam ambos os tratamentos. Não havia diferenças significativas.
Mas os pesquisadores observaram que o benefício da quimioterapia variava de acordo com uma combinação de probabilidade de recorrência e idade, "com algum benefício da quimioterapia para mulheres de menos de 50 anos de idade e com resultados de recorrência da ordem dos 16 aos 25 pontos".
Bari Brooks, 58, de White House, Tennessee, é paciente de Mayer e descobriu depois de uma mamografia que tinha câncer de mama, em 2009, quando ela tinha 49 anos. Mayer lhe disse que ela era candidata a quimioterapia e também ao estudo - no qual ela podia ou não receber quimioterapia.
Como ela via o risco de não passar por um tratamento que talvez pudesse salvar sua vida? Ou o risco de que os efeitos colaterais que o tratamento causaria talvez fossem desnecessários?
"Não tive nem que pensar para decidir", disse Brooks, que trabalha na área de relações humanas na Universidade Vanderbilt. "Decidi que sim, queria tentar",. Ela acrescentou que "você percebe o quanto todas as coisas são insignificantes. Dinheiro, não importa o quanto você tenha. Trabalho, os projetos que você tem, não importam. Para o que contribuí, em minha vida, e para o que desejo contribuir? Lá estava uma situação na qual eu podia também contribuir. Fiquei honrada e agradecida por poder fazer parte disso".
Ela decidiu que se fosse designada para o grupo da quimioterapia, "eu trataria o processo como se estivesse sendo purgada, e não envenenada".
Brooks terminou no grupo que recebeu quimioterapia e terapia endócrina. A quimioterapia ajudou? Talvez, talvez não. Ela não se arrepende. E tampouco mostra traços de câncer.
Mayer disse que a atitude filosófica de Brooks não era incomum, e que as mulheres que aceitavam participar dos estudos compreendiam que estavam realizando um salto às cegas e poderiam receber o tratamento "errado", ou menos desejável.
"Elas são gratas por terem ajudado no avanço do conhecimento, em benefício de outras mulheres", disse Mayer. "Jamais subestimo o quanto as pessoas podem ser gentis e altruístas. As mulheres defendem umas às outras".
Tradução de Paulo Migliacci
The New York Times
 


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